A metalinguagem idealista de Bakuman.

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A metalinguagem idealista de Bakuman.

Mensagem por ¿ Bµsңidợ ? em 15th Dezembro 2011, 05:20

Esse post irá conter fortes spoilers sobre Bakuman e Death Note, leia por conta e risco!

Na época do colegial, no meio de tantas obras lidas e estudadas nas aulas de literatura, uma que me chamava muito a atenção era Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Não exatamente pela história – sendo sincero, nunca completei o livro -, mas pela habilidade do autor com as palavras. Não somente sua prosa era das melhores que eu havia lido, mas uma característica específica me causava grande satisfação ao ler: suas digressões, intertextualidade e metalinguagem. Certamente um dos momentos literários que mais me marcaram até hoje foi ver o imortal culpar o leitor pela sua ignorância frente à leitura complexa do autor.

Desde aquela época esses recursos criativos sempre me chamaram muito a atenção, chegando a influenciar nas (poucas) coisas que escrevi nada vida. Dessa forma, é fácil entender que para mim (e para muitos) grande parte da diversão ao ler o manga Bakuman está justamente no seu caráter metalinguístico e nas frequentes intertextualidades.


Para aqueles que não acompanham o manga semanalmente, serve um pequeno resumo: A dupla Mashiro e Takagi, jovens autores na revista Shounen Jump que se utilizam do pseudônimo Ashirogi Muto para publicarem suas obras. Nos capítulos mais recentes a dupla lançou um novo manga – Reversi – que tem como enredo base um estilo de manga de batalha não-mainstream através da dualidade de dois personagens principais (percebam a diferença entre “protagonista” e “personagem principal”).

Apesar do imenso sucesso inicial do novo título, os dois, juntamente do seu editor, Hattori Akira, percebem que a obra possui um problema difícil de ser solucionado. Ao dar importância igual para a luta dos dois protagonistas, não há muito para onde correr, o final está definido, as únicas posssibilidades é de como ele acontecerá. Assim, como fazer um manga que dure anos e anos como obras consagradas (Rurouni Kenshin, Slum Dunk, Dragon Ball, como cita o próprio roteirista da dupla, Takagi, em mais um exemplo da intertextualidade do título) anteriores sem perder a qualidade, caindo para clichês que comprometam o valor artístico das mesmas?


Antes de continuar meu raciocínio, leitor, peço que voltemos dois capítulos antes do atual. Neste temos o árduo processo da dupla e seus assistentes em conseguir produzir um capítulo de 45 páginas para o manga PCP, agora de mudança para uma revista mensal, e um capítulo de 56 páginas para Reversi. Isso sem contar com o fato de que ambos capítulos receberão páginas coloridas, exigindo ainda mais dos artistas.

Este capítulo, iconicamente intitulado “Smooth sailing and pandemonium” destoa completamente do estilo usual de Bakuman e pode ser entendido como um one-shot dentro de uma obra semanal. É tanto que mesmo a arte de Takeshi Obata passou por matizes diferentes para explorar emoções completamente novas do que encontramos em Bakuman. Com exceção da qualidade excepcional deste capítulo, ele foi totalmente dispensável, principalmente se levarmos em conta como a passagem temporal em Bakuman costuma ser rápida e abrupta. Quisesse os autores, em duas páginas eles mostrariam esse sofrimento, que sim, era importante mostrar, mas não indispensável.

Na minha percepção Obata e, principalmente, Ohba, se utilizaram deste capítulo como uma oportunidade de aprofundar mais ainda a metalinguagem que já é tão marcante em um manga sobre fazer mangas. Este capítulo não me fala sobre Bakuman (ou pelo menos não me fala muito), mas me fala de toda uma angústia própria dos autores, possivelmente pelas suas experiências pessoais que passaram durante as carreiras. Bakuman foi só o meio de passar uma ideia.


Tendo essa percepção minha sido apresentada, faz-se possível retomar para o motivo principal deste post. Caso você, leitor, já tenha lido Death Note, é bem possível que aqui já saiba aonde eu queira chegar, mas tenha calma, não apresse a leitura.

Ao perceberem que Reversi tem grandes chances de ser uma obra de gigante qualidade, mas que para isso provavelmente não durará muito tempo, Bakuman começa uma discussão Qualidade X Quantidade. “Não está tudo bem terminar um manga rapidamente?” questiona Mashiro. Este ponto é de fundalmental importância para a obra, pois é a quebra de um paradigma básico da série: Fazer um manga de sucesso para que ele logo vire anime, possibilitando que Azuki, “noiva” de Mashiro, possa ser a seiyuu principal do mesmo e os dois possam finalmente se casar. Apesar das preocupações de Takagi quanto a isso, vê-se um amadurecimento óbvio em Mashiro quanto ao seu papel como mangaka (e aqui cabe a crítica de isso estar sendo feito às custas de Mashiro, aquele que em teoria deveria ser o mais inteligente da dupla).


É praticamente um consenso entre os fãs (e não tão fãs) de Death Note de que a obra, apesar de ser como um todo muito boa, tem seu ápice de qualidade na morte do detetive L. E aqui devemos voltar para a discussão trazida por Bakuman: Um manga de qualidade, com uma história sólida e que sabe para onde está indo deve se render a artifícios como novos personagens, aumento de poderes, incremento na ação, apenas para poder continuar sendo publicado ou deve entender o seu real potencial e terminar quando o autor acredita ser o melhor momento?

A resposta, mesmo que fictícia, da dupla Obata e Ohba é que a qualidade é mais importante. Apesar desse mote de valor artístico ser frequente na obra, sabemos pelo histórico que não é exatamente assim que pensa a Shounen Jump. Casos como Dragon Ball são emblemáticos para ilustrar que sim, na maioria das vezes, é o valor econômica que falará mais alto.

Em Death Note foi feita uma escolha que na minha opinião se mostrou errada, com o manga perdendo fôlego seguidamente em seu segundo arco principal, traindo aquilo que havia me atraído para ele em um primeiro momento. É difícil dizer se os autores foram obrigados, coagidos ou simplesmente tomaram a decisão errada, mas ao ler este último capítulo de Bakuman nos é permitido pensar que eles estão ali falando para todos “Nós erramos em Death Note, às vezes um manga simplesmente precisa acabar porque é a hora dele acabar. Na realidade talvez isso seja mais complicado, mas no mundo que criamos vamos nos manter com aquilo que idealizamos”.

Existem muitas críticas ao manga e ao anime de Bakuman, e eu sou suspeito para defende-los visto que é meu manga atual favorito, mesmo que alguns arcos recentes tenham sido abaixo da média. Mas é inegável que dentro da sua proposta (e muitas vezes uma análise qualitativa de uma obra “erra” simplesmente por não entender o que foi proposto pelo autor) de explorar de forma, sim, idealizada a metalinguagem dos mangas dentro de um estilo shounen, Bakuman é sim muito bom.

Fonte: Gyabbo
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Re: A metalinguagem idealista de Bakuman.

Mensagem por Hina-san em 16th Dezembro 2011, 15:29

Orra, curti o topico \o/

Um manga de qualidade, com uma história sólida e que sabe para onde está indo deve se render a artifícios como novos personagens, aumento de poderes, incremento na ação, apenas para poder continuar sendo publicado ou deve entender o seu real potencial e terminar quando o autor acredita ser o melhor momento?
Dahora isso, eu gostei em Bakuman quando o Saiko e o Takagi falam sobre Reversi, se deveria ser curta ou fazer de forma que durasse bastante tempo.
Nao deveriam ir inventando historias e mais enrolações quando um mangá esta fazendo sucesso, só vai deixando mais chato de acompanhar. Mas tem que "enrolar" de um jeito que de pra explicar e acontecer as coisas calmamente.

Maldito Gyabbo, quando eu paro de ler as atualizaçoes ele me vem com uma coisa interessante G_G
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